Sensação permanente de trabalho sem fim e prejuízos à saúde das/os trabalhadoras/es compõem o cenário revelado pela nova pesquisa do Núcleo de Estudos de Processos Psicossociais e de Saúde das Organizações e no Trabalho (NEPPOT-UFSC) [1].
O estudo investigou os impactos psicossociais do trabalho entre trabalhadoras e trabalhadores do TJSC, a partir de dados coletados entre 2024 e 2025. Os resultados apontam para um quadro preocupante, mas já conhecido pelo SINJUSC: o modelo de gestão do trabalho adotado pelo tribunal tem priorizado métricas de desempenho à custa da saúde física e mental da categoria.
Em pesquisa anterior o NEPPOT analisou os impactos do trabalho remoto nos servidores durante a pandemia. A seguir, o Fazendo Escola comenta alguns dos dados dessa nova pesquisa e discute o que eles revelam sobre as condições atuais de trabalho no TJSC.
HORA EXTRA NÃO REMUNERADA|
63,77% das/os trabalhadoras/es trabalham além do expediente. Desses, 27,81% realizam mais de 6 horas extras por semana — o que equivale, na prática, a quase um dia a mais de trabalho, sem remuneração. A sobrecarga de trabalho é um fator de risco que leva ao adoecimento físico e psicológico.

Quase metade dos trabalhadores (48%) é responsável principal pelo cuidado de crianças, adolescentes, pessoas idosas, adoecidas ou com deficiência. Essa forma de trabalho, invisibilizada e também não remunerada, precisa ser levada em conta quando avaliamos o peso da sobrecarga promovida pelo TJSC
AVALIAÇÃO DO CONTEXTO DE TRABALHO: BOAS CONDIÇÕES MATERIAIS, MAS COM MUITA SOBRECARGA E DESAMPARO|
As pessoas que participaram da pesquisa avaliaram seu contexto de trabalho em três categorias diferentes. Organização do trabalho é a categoria que dimensiona as práticas de gestão do trabalho e das pessoas. Relações socioprofissionais dizem respeito às interações de trabalho entre colegas e com as chefias. Por fim, condições de trabalho refere-se às características materiais da infraestrutura e do suporte fornecido pelo TJSC. Cada item dentro dessas três categorias recebeu uma nota dentro de uma escala de 1 a 5, variando entre positivo, crítico e grave. Quanto maior a pontuação, mais negativa é a avaliação. Confira abaixo as médias obtidas em alguns dos itens avaliados.



A avaliação só apresentou índices positivos na dimensão relativa às condições materiais de trabalho. Já na categoria organização do trabalho, as médias revelam trabalhadores sobrecarregados, pressionados e submetidos a metas que se revelam inalcançáveis diante das demandas mediadas pela tecnologia e do número insuficiente de trabalhadores. Trata-se de um processo de intensificação do trabalho: produz-se mais e em ritmo mais acelerado. A estafa física e cognitiva são efeitos dessa intensificação que promove uma sensação de “trabalho sem fim”.
Na dimensão relações socioprofissionais, os resultados também foram negativos. No modelo de controle adotado pelo TJSC, o assédio se converte em ferramenta de gestão, expresso na pressão contínua por produtividade a qualquer custo — um contexto adoecedor reconhecido pelos próprios servidores.

OS TRABALHADORES SABEM: TRABALHAR NO TJSC ADOECE|
61,3% dos servidores afirmaram que suas atividades laborais contribuem para desencadear sinais ou sintomas de adoecimento. No questionário aplicado pelas pesquisadoras, solicitou-se que relatassem situações em que perceberam essa relação entre trabalho e riscos à saúde. Em mais da metade das respostas (54,65%), foram mencionados diferentes sintomas de adoecimento psicológico (36,79%) e/ou físico (17,86%) como decorrentes do trabalho. 34,01% atribuíram o adoecimento ao próprio contexto laboral, destacando fatores como acúmulo de demandas, cobrança por metas, quadro funcional reduzido, condições ergonômicas e comportamentos assediosos. A seguir, apresentamos alguns trechos de respostas que ilustram essas percepções.

Parte dos servidores (5,56%) apontaram que características intrínsecas às suas funções — como lidar com temas sensíveis, conflitos e situações de vulnerabilidade — também representam risco à saúde. Por fim, injustiças na organização do trabalho, como desvio de função e falta de reconhecimento, também foram citadas nas respostas como fatores de adoecimento (1,6%).
PREJUÍZOS À SAÚDE: QUANDO AS MÉTRICAS SE CONVERTEM EM SOFRIMENTO|
A pesquisa também identificou como esses processos de adoecimento já se manifestam entre os/as trabalhadores/as, mensurando danos à saúde em três dimensões: física, social e psicológica. Cada item dessas categorias recebeu uma média em escala de 1 a 7, com classificações que variam de risco baixo a alto. Quanto maior a pontuação, mais preocupante o resultado. Dos 29 itens avaliados, apenas um foi classificado como risco baixo. Veja a seguir a classificação de alguns deles:



Temos aqui um aparente paradoxo: embora os/as trabalhadores/as tenham avaliado positivamente as condições materiais de trabalho (espaço físico, mobiliário e instrumentos), a dimensão de riscos físicos à saúde apresenta os índices mais alarmantes. Uma explicação possível é que, apesar das melhorias nas estruturas materiais, a intensificação do trabalho tenha resultado em dores corporais e esgotamento. Essas dores também podem fazer parte de um quadro de sofrimento que atinge os sujeitos de forma integral, manifestando-se, muitas vezes, com mais evidência no corpo do que na esfera psíquica.
Os resultados indicam avaliações negativas em todas as dimensões analisadas, com índices ainda mais elevados entre mulheres e entre aqueles que trabalham além do expediente. Esses achados sugerem que, em vez de promover saúde, o modelo vigente tem contribuído para o agravamento dos riscos.
TRABALHANDO DOENTE: O FENÔMENO DO PRESENTEÍSMO NO TJSC|
Segundo a pesquisa, 25% dos/as trabalhadores/as já precisaram se afastar para tratamento de saúde em razão de acidente de trabalho e/ou doença relacionada às atividades laborais. Entre esses casos, 48% estiveram ligados a sintomas ou adoecimentos psicológicos (como ansiedade, burnout, depressão, estresse e situações de assédio) e 46% a problemas físicos (incluindo dores diversas, tendinite, LER, hérnia de disco, bursite e outras condições osteomusculares).

Embora muito expressivo, o número de afastamentos não é o dado mais preocupante. O registro de presenteísmo — termo que designa a situação em que a pessoa comparece ao trabalho mesmo estando doente e sem condições adequadas de exercer suas atividades — acende um grave alerta. Metade dos participantes relatou já ter trabalhado doente, quando deveria estar em licença para tratamento de saúde.
O questionário também pediu que os participantes explicassem por que tomaram essa decisão. Desconsideradas as respostas que apenas mencionam o tipo de doença ou os sintomas apresentados no momento em questão, estes foram os motivos mais frequentemente citados:

Esses achados da pesquisa sinalizam algo muito grave: a gestão pelo medo tem funcionado no TJSC à custa do sofrimento dos trabalhadores. Os servidores permanecem trabalhando mesmo doentes, negando seus próprios limites, para “dar conta” do trabalho, suprimirem a falta de colegas nas equipes ou não serem responsabilizados por “travar” seus setores. Nesse processo, o trabalhador acaba autogerenciando seu trabalho, exigindo-se mais produtividade mesmo que isso o coloque em risco. É sobre isso que falamos quando mencionamos o assédio como modelo de gestão. Vejamos alguns dos depoimentos retirados dos questionários que ilustram esses casos:

A percepção de que o home office e o teletrabalho não permitem afastamento para cuidados de saúde indica que essas modalidades ainda são encaradas como benefícios, e não como um direito — mesmo quando vêm acompanhadas de exigências de aumento de produtividade. Esse dado merece atenção especial, sobretudo porque, segundo a pesquisa, apenas 36,5% dos servidores atualmente atuam integralmente de forma presencial.

É preciso refletir sobre os motivos que levam os servidores a evitar o trabalho presencial. Pesquisas mostram que o trabalho remoto muitas vezes é visto como proteção frente a relações de trabalho assediadoras. As modalidades não presenciais trazem vantagens como menor deslocamento e mais convivência familiar. Por outro lado, elas aprofundam a perda de limites entre trabalho e descanso, ampliando a jornada por meio da tecnologia. Por isso, é urgente debater o direito à desconexão.

DO CUIDADO INDIVIDUAL ÀS SAÍDAS COLETIVAS|
Quase metade dos servidores realizam algum tratamento relacionado à saúde mental. Entre estes, 68,8% usam medicação.

Essas estratégias individuais de cuidado podem ser importantes, mas é fundamental reconhecer que a saúde não vai melhorar enquanto a organização do trabalho continuar adoecendo quem trabalha. Esse ponto é central porque o adoecimento não pode ser interpretado como fragilidade individual — e a pesquisa evidencia sua dimensão coletiva, vinculada a escolhas de gestão no TJSC.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem alertado para o crescimento da solidão e do isolamento social, fatores associados ao aumento do risco de doenças graves. Nesse contexto, fortalecer a organização coletiva torna-se uma necessidade. O modelo de gestão individualizante, somado ao isolamento do trabalho não presencial, enfraqueceu os espaços de troca, diálogo e apoio entre colegas: o suporte antes encontrado no coletivo foi, em muitos casos, substituído por uma solidão mediada por telas.
Assim, a dimensão coletiva assume dupla importância para a saúde dos trabalhadores. Por um lado, é por meio da organização sindical que se tornam possíveis mudanças na gestão do trabalho, para que os ambientes laborais sejam promotores e não inimigos da saúde. Por outro, a participação nas lutas da categoria contribui para reconstruir vínculos, recompor redes de apoio e romper o isolamento.
RECOMENDAÇÕES DAS PESQUISADORAS|
As pesquisadoras do NEPPOT concluíram que a rotina de trabalho dos servidores do TJSC vem sendo marcada pelo processo de intensificação, que ultrapassa o limite do que muitos conseguem suportar. Segundo elas, a combinação de condições organizacionais desfavoráveis com a percepção de que o trabalho provoca sinais e sintomas de adoecimento indica que mudanças são necessárias e urgentes. O estudo destaca que o sofrimento relatado não é pontual nem individual, mas resultado direto da alta exposição a riscos psicossociais que resultam das escolhas de gestão feitas pela instituição.
Tendo isso em conta, as pesquisadoras fizeram quatro recomendações para começar a reverter esse quadro:

NOTA DE RODAPÉ|
[1] A pesquisa foi realizada em duas etapas. Na primeira foram organizados 4 Grupos Focais. Na segunda foi aplicado um questionário com 945 respostas válidas. Os depoimentos expostos aqui dão contexto narrativo aos dados quantitativos e foram extraídos de trechos transcritos dos Grupos Focais ou das quatro perguntas abertas que fazem parte do questionário. O NEPPOT é vinculado ao Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina.
Na minha comarca temos cinco servidores em cartório, e ainda assim algumas coisas atrasam, eu acho absurdo que existam comarcas com três servidores apenas no cartório.
O Tribunal deveria chamar mais pessoas em vez de ficar jogando dinheiro fora em IA.
E nesse assunto de IA, é incrível que o Judiciário veja a meta de sustentabilidade do PJ e ainda assim fique pagando essas IAs que possuem impactos ambientais significativos.
Em outras palavras, nós, servidores, precisamos controlar nossas impressões, levar canequinha e garrafinha, usar só duas folhinhas para secar a mão no banheiro, enquanto isso, os datacenters usados pelas IAs literalmente acabam com todo o ecossistema ao seu redor.