Por Mateus Graosque Mendes, psicólogo do SINJUSC
Antes de contar essa pequena história, gostaria de pedir aos meus leitores que tenham um pouco de paciência, pois o que vão encontrar aqui se diferencia das costumeiras colunas de saúde que escrevo para o site do Sinjusc. Aquelas em que os conceitos de saúde mental se apresentam em tom de crítica social, desta vez, dão espaço a uma pequena fábula quase fantástica. Quase absurda.
Eu convido vocês a observarem, junto comigo, um sujeito bastante interessante que trabalha numa repartição pública com alto fluxo de processos. Não é no Poder Judiciário, mas, se isso fizer a cena brilhar mais forte diante de seus olhos, cara leitora, podemos fingir que sim. O importante é fazer saber que esse nosso herói é um homem de capacidade intelectual bastante razoável, assíduo e pontual no trabalho e que muito pouco reclama da vida. Um tipo de sujeito que cumpre milimetricamente com todas as suas tarefas e que quando chega em casa consegue até suspirar mais forte, relaxar os ombros, sentar para tirar o sapato e pensar alto: “Mais um dia”. Nosso bravo trabalhador pensa que está ganhando dias de vida trabalhando desse jeito, enquanto o seu colega, que nem de perto se comporta com o mesmo esmero que o nosso protagonista, toda vez que chega em casa fica em silêncio, tendo já suspirado (um pouco mais leve), muito tempo antes, diante do ponto eletrônico: “Menos um dia”. Oras! Como assim “mais um dia” e “menos um dia” depois de terem feito a mesma coisa de suas vidas? Antes que o leitor tente responder a esse dilema, vale a pena ver um pouco mais de perto o dia a dia de trabalho nessa fingida repartição.
O curioso expediente começa no horário do almoço, religiosamente ao que chamamos de meio-dia, o que não poucas vezes obriga o nosso virtuoso cidadão a almoçar mais tarde ou simplesmente “pular” uma refeição. Mas, antes que comecem a sentir comiseração pelo fato de um tão dedicado funcionário público iniciar o seu labor sob o efeito calamitoso da fome, eu já lhes previno: nosso guerreiro acha justo e até salutar perder um pouco de peso, já que os exercícios físicos em seu cotidiano se aproximam do mais absoluto sedentarismo. Teve um dia que, diante do seu médico, ele sentiu os olhos baços de lágrimas ao ouvir a recomendação: “O senhor não pode viver sem fazer nada! Se continuar nessa ociosidade, vai morrer muito antes da hora” — sentenciou —, embora nem mesmo esse ungido da medicina saiba exatamente que hora de morrer é essa.
Diferente dele é aquele já mencionado colega que, prevenido que é, leva consigo uma vianda com carne, arroz e saladinha sobrados da janta de ontem, facilmente requentada no micro-ondas da cozinha, onde o cheiro do cominho e do orégano faz torcer os narizes de colegas menos gastronômicos. Uma vez até chegaram a sugerir que o chefe proibisse as refeições nas mesas de trabalho, visto que os aromas dos mais variados pratos e temperos de todas aquelas jantinhas requentadas (pois nosso estimado coadjuvante não é o único sujeito prevenido nessa repartição) imprimem no ar um pitoresco clima de “fundos de lanchonete”, como bem disse uma das colegas de nariz torcido. Em resposta a esse fundamentado pedido, o chefe não disse que sim e nem tampouco disse que não. Sua decisão só será proferida após uma equipe designada pela junta médica periciar os possíveis riscos ao ambiente laboral que venha a provocar aquela fila de viandinhas que se acomodam ao lado do forno, esperando cada uma a sua vez de passar pelas ondas eletromagnéticas.
Enquanto a Junta Médica não emite parecer, nosso herói segue jejuando e a pilha de processos segue aumentando na mesma velocidade que o cheiro do peixe grelhado se dissipa pelo ar-condicionado. O fluxo de processos é tão grande que é preciso fazer um cálculo mental bem amargo: “se eu não trabalhar após o expediente não consigo dar conta de bater a meta” — e com isso em mente, avança para além do horário exigido em seu contrato de trabalho. Tarde da noite, já esgotado pelo tec-tec do teclado e pelo clic-clic do mouse, olha para o relógio do celular e se prepara para voltar para casa, nem é assim tão tarde!, afinal de contas, se eu tivesse saído mais cedo, estaria a essas horas sentado no sofá gastando tempo com futilidades, assistindo à TV ou conversando com as crianças, ou seja, fazendo nada.
Para não deixar essa história cansativa, não iremos relatar os pormenores de sua chegada em casa, do suspiro – mais um dia! – e nem da lúgubre recepção que as paredes de sua casa, já escurecidas pela penumbra da meia-luz, lhe fizeram. O que vale dizer é que, para quem chega do trabalho tarde da noite, o máximo que se escuta são os sibilos pulmonares das crianças, o chiadinho de ronco da esposa e o ronronar ofegante daquele gato frio e distante que lhe passa entre as pernas. E é nessa escura cozinha que o nosso herói requenta a sua jantinha e, reparem, ele come tão tarde que não sobra nem uma quentinha para o almoço de amanhã; não há nenhuma chance de esse abnegado servidor entrar naquela fila de viandas hoje sob perícias e sindicância.
