Artigo| O trabalho que nunca termina: trabalhadores e trabalhadoras à beira do colapso mental

Por Mateus Graosque Mendes, psicólogo do SINJUSC

Todos merecemos o devido descanso após uma jornada de trabalho dura e cansativa. Chegar a uma sexta-feira, às 19 horas, desligar o computador e brindar ao afeto causado pela sensação do dever cumprido é o que garante boa parte do bem-estar físico e psicológico de um trabalhador e de uma trabalhadora. Afinal, é nesse exato momento que a bateria psicológica deveria desligar, pois o trabalho cessa de demandar combustível, que é a nossa própria energia de vida. No entanto, em tempos de processos eletrônicos e metas de produtividade insaciáveis, essa bateria muitas vezes não desliga. O servidor permanece em estado de alerta mesmo fora do expediente, como se a alma estivesse em débito com um senhor invisível e implacável.

É como se o corpo saísse do fórum, ou do computador no caso do home office, mas a mente permanecesse aprisionada. Você ainda está conectado aos e-mails, às mensagens de retorno que não chegaram durante o expediente e àquela lista de pendências que, como uma sombra, se projeta sobre o jantar em família ou sobre o encontro com os amigos. É aquele frio na barriga, uma angústia seca ao ouvir o alerta de uma notificação, ou o diálogo com os filhos que se perde porque a cabeça foi sequestrada por um fluxo de ideias que não estanca. Imagine-se em um domingo ensolarado, cercado por quem você ama, mas incapaz de ouvir a conversa ao redor porque, internamente, você está redigindo uma minuta ou antecipando o conflito de um prazo que vence na terça.

O sono não vem, substituído por pensamentos que te sabotam; aquela conversa mental repetitiva que, no silêncio da noite, ganha força e te obriga a revisar metas enquanto você deveria apenas descansar. A vida, reduzida a um amontoado de tarefas, perde o brilho de se estar verdadeiramente presente no mundo e se torna apenas uma espera ansiosa pelo próximo problema a ser resolvido ou pela inevitável angústia do próximo dia de trabalho.

A máquina que não para e o corpo que adoece

Essa invasão constante tem nome e um preço biológico alto, chama-se sobrecarga alostática. É o desgaste cumulativo que o corpo sofre ao ser forçado a manter um equilíbrio sob pressão constante, um mecanismo de adaptação que, de tanto ser exigido, acaba por exaurir o organismo e colapsar a saúde mental. Quando o sistema nervoso não encontra mais o botão de “desligar”, o corpo passa a viver em regime de vigilância permanente, drenando estoques vitais de dopamina e serotonina que deveriam sustentar o prazer e o relaxamento, mas que acabam queimados na fornalha do estresse crônico. É como se estivéssemos operando no limite das nossas reservas biológicas, sem tempo para a reposição mínima necessária.

Diante desse cenário, a luta pela redução da jornada de trabalho no Poder Judiciário não é um luxo ou uma pauta sindical meramente corporativa, é uma urgência para a preservação da sanidade e da dignidade de quem trabalha. Defender menos horas de conexão é, fundamentalmente, garantir o direito à desconexão, assegurando que o trabalhador possa efetivamente se desligar das ferramentas digitais e das exigências institucionais sem ser perseguido por fantasmas laborais. É defender o direito de ser mais do que um número de produtividade.

É preciso entender que o trabalho humano tem limite e que a eficiência não pode ser medida pelo esgotamento dos trabalhadores. Precisamos retomar, coletivamente, o direito ao fim do expediente para que a nossa existência recupere seu sentido próprio e não seja apenas um intervalo precário, cansado e assombrado entre um processo e outro. A saúde é, antes de tudo, a possibilidade de retomar a posse de si mesmo.

REFERÊNCIAS E SUGESTÕES DE LEITURA

  • DEJOURS, Christophe. A Loucura do Trabalho: Estudo de Psicopatologia do Trabalho (psicopatologia: estudo das causas e naturezas das doenças e sofrimentos mentais). São Paulo: Cortez, 1992.
  • HAN, Byung-Chul. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
  • SELIGMANN-SILVA, Edith. Trabalho e Desgaste Mental: O Direito à Saúde. São Paulo: Cortez, 2011.

Para uma perspectiva literária sobre o tema:

O Capote (Nikolai Gogol, 1842)

Neste conto clássico da literatura russa, acompanhamos Akaki Akakievitch, o funcionário público cuja existência é consumida pela engrenagem burocrática e pela busca de um sentido material para sua dignidade.

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