O medo te faz trabalhar doente! Pesquisa aponta que mais da metade dos(as) trabalhadores(a) do TJSC tem medo de apresentar atestado

Do total de 875 respostas consideradas pela pesquisa de saúde SINJUSC-Neppot-UFSC, 438 (50,06%) trabalhadoras e trabalhadores do Judiciário catarinense afirmaram já ter precisado trabalhar doente. O levantamento também reuniu 473 relatos sobre os motivos que levaram as pessoas a cumprirem o expediente apesar do estado de saúde debilitado e constatou que em 56,87% dos casos a motivação está relacionada a vergonha ou medo de apresentar atestado, urgência, metas, sobrecarga, prazos, falta de pessoal, medo da chefia e julgamento dos colegas.

Esse cenário evidencia o chamado presenteísmo, quando o trabalhador, mesmo doente, continua exercendo suas atividades, o que pode agravar seu estado de saúde e prolongar o processo de adoecimento.

Para o psicólogo do SINJUSC, Mateus Graosque, “esse dado é particularmente grave, pois evidencia que a gestão pelo medo “funciona”, mas à custa do sofrimento psíquico dos trabalhadores. A pessoa permanece trabalhando mesmo adoecida, negando o próprio corpo e seus limites, como forma de se proteger do medo de se sentir excluído ou de ser responsabilizado por “travar” o setor, pelo número de processos parados ou pelo não cumprimento das metas”.

Mateus acrescenta que “o trabalhador acaba se transformando no próprio cobrador, exigindo-se excessivamente para não se tornar mais uma vítima da pressão e do assédio moral”. Esse comportamento tem relação com o que a pesquisadora Ludmila Abílio descreve como “autogerenciamento subordinado”: quando o trabalhador assume a responsabilidade pela própria rotina e produtividade, mas permanece rigidamente submetido a regras impostas por sistemas informatizados.

De acordo com o presidente do Fazendo Escola, Neto Puerta, “é muito importante que as trabalhadoras e os trabalhadores do Judiciário entendam que se cobrar ao ponto de ir trabalhar doente não é compromisso – é resultado da pressão imposta pelo modelo de gestão. Reconhecer que estamos submetidos a processos de precarização semelhantes aos vividos por outras categorias ajuda a compreender que somente a unidade da classe trabalhadora será capaz de reagir ao aumento da produtividade sem a devida remuneração e sem ampliação de direitos”.

Realizada a partir da parceria entre o SINJUSC e o Núcleo de  Estudos de Processos Psicossociais e de Saúde nas Organizações e no Trabalho (Neppot-UFSC), a pesquisa intitulada “Condições de trabalho e seus impactos psicossociais em servidores do Poder Judiciário de Santa Catarina” foi realizada de agosto de 2024 a dezembro de 2025. O estudo contou com a participação de 20 colegas durante a primeira fase, nos grupos focais, e com cerca de 900 questionários respondidos pela categoria via internet, na segunda fase.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *