Ilustração: Tay Nascimento

Artigo| A ditadura da correria: por que temos tanto medo de parar?

Por Mateus Graosque Mendes, psicólogo do SINJUSC

Não é com pouca frequência que nosso “bom dia, como está?” encontra como resposta um “tô numa correria do inferno”. Escutamos e comunicamos isso o tempo inteiro e em todos os lugares. Vou tomar um café correndo e chegar a tempo no trabalho. Lá eu abro os e-mails, verifico as mensagens mais urgentes, atendo o telefone… e começa a correria. Bora. As próximas horas podem ser frenéticas pois o celular não para de tocar com demandas de trabalho e da vida familiar, o filho na escola, a consulta marcada de última hora, os boletos que vencem hoje e as compras que precisam ser feitas à noite antes de chegar em casa. Amanhã o carro vai para revisão, tenho que me organizar, abastecer e ligar ao seguro… À noite a correria pela saúde do corpo na academia. Tá pago. Finalmente chegamos em casa. Ufa!

 — Boa noite.

— Boa noite, como foi o dia?

— Uma correria do inferno. E o seu?

— Também.

Demos um status de alto valor ao cansaço e ao ritmo incessante de tarefas durante nossos dias e nossas noites. Estar ocupado virou sinônimo de ser importante e ter tempo livre virou motivo de culpa. A internet que nos prometia um mundo a ser descoberto nos enreda em dois ou três aplicativos que demandam o tempo inteiro da nossa atenção. Será que curtiram? Nos perguntamos sobre aquele storie no Instagram. E aquele meu comentário? Buscamos validação em segundos. Será que recebeu meu e-mail? A angústia da incerteza que nos consome por dentro. Enquanto isso, rola o feed, passa pra cima mais um vídeo de quinze segundos e já se passaram uma hora inteira. E eu não fiz nada. Entregamos nossos minutos preciosos para o algoritmo acalmar a nossa mente ansiosa.

— Viu que o Irã entrou em guerra?

— Vi. E você viu o vídeo do gatinho andando de skate?

— Vi, muito bom. Mas e aquele cara que matou a esposa ontem à noite? Viu?

— Vi também, bizarro.

No outro dia, a mesma jornada se repete. Novos e velhos problemas, o e-mail esperado ontem que chegou hoje, a mensagem que deixamos no vácuo. Hoje eu respondo. O telefone toca e ficamos meia hora numa ligação. Absurdo! Nem manda mensagem antes de me ligar. Da próxima vez não atendo. Olha o e-mail de novo, revisa a minuta…

— Viu, não esquece o prazo daquele processo!

— Sim, pode deixar que eu dou um jeito.

E se não der? Bom, se não der você precisa de uma boa planilha para se organizar melhor. Menos distrações e mais foco. Mais ritmo e melhor desempenho. Resiliência virou palavra mágica para um tempo que só se acelera e contabiliza resultados e metas.

— Hoje eu tenho terapia. Posso sair mais cedo?

— Sim, mas não esquece a declaração de comparecimento.

— Certo, vou me lembrar.

Da terapia com o psicólogo até o consultório do psiquiatra são mais ou menos duas quadras. Saindo da academia eu passo na farmácia. As doses foram ajustadas.

A gente engole o diagnóstico de ansiedade generalizada, aceita o tarja preta e volta para o trabalho achando que o defeito está na nossa engrenagem individual. Afinal, a planilha está lá e o tempo não para. Remediamos o corpo para continuar correndo uma corrida que não tem linha de chegada nem espaço para a contemplação. O ócio, além de pecado, virou fraqueza moral. A pressa recebe um troféu e o corpo, se não funcionar no mesmo ritmo, leva cartão vermelho.

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