Para onde vamos tem sempre um navio chamado “Amistad”!

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Era perto de 13 de maio. Passava um filme no quadro da sala de aula. Amistad. História sobre prisioneiros destinados ao tráfico humano que acabam no tribunal mercantil de uma Ilha. O filme termina. Luzes acesas para o debate precedido das questões: o que foi a escravidão e o que é a escravidão moderna?

Quatro ou cinco estudantes sonolentos bocejavam displicentemente erguendo braços ou sacudindo cabelos. Mais ao meio da sala de 45 pessoas sentadas, alguns olhos bem abertos de espanto. E aqui e ali, nas primeiras fileiras, aquela agitação de querer mais. Mas eram bem poucos.

13 de maio. Lei Áurea. Negros. Sistema econômico com base na exploração do homem e do seu trabalho. Sociedade que admitia que um homem tomasse outro como objeto, com apoio da lei e da religião. O vôo foi curto. Uma ou duas intervenções. Alguém se levantou avisando que iria embora porque o assunto era muito chato e que no Brasil nunca houvera escravos.

Mais outros se ajuntaram na debandada, desinteressados pelo Amistad, despreocupados sobre o debate do que foi a escravidão para o País, e se há e como se configura a escravidão moderna.

Mais alguém se levantou e antes de apagar a luz da sala, para que ela fosse evacuada de vez, sem nenhuma conversa, disse: “O que importa tudo isso? Por que iria querer ver um filme desses e pensar sobre esses assuntos, se, de verdade, o mundo começou quando eu nasci!”.

O professor recolheu o Amistad. Saiu da sala e da escola. Depois, na praça da cidade, encontrou alguns daqueles jovens. Perguntou-lhe para onde iriam, o que fariam, qual causa defenderiam, por qual ideia de sociedade entregariam suas energias. Nada. Só se sacudiam, como aqueles bonecos de posto de gasolina.

Então ele convidou para que viessem até a praça na próxima noite, para que ouvissem um episodia da história da cidade onde moravam. De um terreno que hoje abriga uma escola mas que já tivera fincado no seu centro um “pau de amansar bugre”.

Eles se foram. Gritaram da esquina que não voltariam. Não queriam saber do passado, da história das pessoas e dos lugares. Afinal, iriam para lugar nenhum no presente e no futuro.

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