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Você trabalha muito mais que um servo da Idade Média
16/10/2017

Por Lynn Parramore, da Voyager

A vida de um camponês medieval certamente não era um mar de rosas. Sua vida era assombrada pelo medo da fome, doenças e eclosão de guerras. Sua dieta e higiene pessoal deixavam muito a desejar. Mas, apesar de sua reputação de miserável, você pode invejá-lo por um motivo: suas férias.

Arar o solo e colher eram tarefas árduas, mas o camponês desfrutava de algo entre 8 semanas e metade do ano de férias. A igreja, ciente de como impedir a população de se rebelar, forçou uma série de feriados obrigatórios. Casamentos, velórios e nascimentos poderiam significar uma semana de folga, bebendo cerveja para comemorar, e quando malabaristas ou eventos esportivos itinerantes vinham à cidade, o camponês contava com a folga para o entretenimento. Havia domingos sem trabalho, e quando as épocas de aragem e colheita acabavam, o camponês também tinha tempo para descansar. De fato, a economista Juliet Shor descobriu que, durante períodos de salário particularmente altos, como a Inglaterra do século 14, os camponeses não poderiam trabalhar mais de 150 dias por ano.

E quanto ao trabalhador moderno dos Estados Unidos? Depois de um ano no emprego, ele tem direito a uma média de 8 dias de férias por ano.

Não se supunha que as coisas seriam assim. John Maynard Keynes, um dos fundadores da economia moderna, fez uma previsão famosa de que, por volta de 2030, sociedades avançadas seriam abastadas o suficiente para que o tempo de lazer não caracterizasse o trabalho, mas o estilos de vida nacionais. Até o momento, as projeções não parecem boas.

O que aconteceu? Alguns citam a vitória do modelo de oito horas de trabalho por dia, 40 horas por semana no lugar das punitivas 70 a 80 horas semanais dos trabalhadores do século 19 como prova de que estamos na direção certa. Mas os estadunidenses já se despediram da jornada de 40 horas há muito tempo, e a análise dos padrões de trabalho feita por Shor revela que o século 19 foi uma aberração na história do trabalho humano. Quando os trabalhadores lutaram pela jornada diária de oito horas, eles não estavam tentando conquistar algo radical e novo, mas restaurar o que seus ancestrais desfrutavam antes dos capitalistas industriais e a lâmpada entrarem em cena. Volte 200, 300 ou 400 anos e você descobrirá que a maior parte das pessoas não trabalhava longas jornadas de maneira alguma. Além de relaxar durante longos feriados, o camponês medieval passava o tempo livre comendo, e o dia geralmente incluía tempo para um cochilo vespertino. “O ritmo de vida era lento, até mesmo vagaroso. O ritmo de trabalho era tranquilo”, observa Shor. “Nossos ancestrais podem não ter sido ricos, mas tinham abundância de lazer”.

Avance para o século 21 e os Estados Unidos são o único país desenvolvido sem nenhuma política nacional de férias. Muitos trabalhadores estadunidenses precisam continuar trabalhando nos feriados e dias de férias frequentemente não são usados. Mesmo quando finalmente conseguimos sair em um feriado, muitos de nós respondem e-mails e conferem se está tudo bem no trabalho quando estamos acampando com os filhos ou tentando relaxar na praia.

Alguns culpam o trabalhador estadunidense por não fazer valer seus direitos. Mas em um período de desemprego consistentemente alto, insegurança no trabalho e sindicatos enfraquecidos, os empregados sentem que não há escolha além de aceitar as condições definidas pela cultura de trabalho e pelo empregador. Em um mundo de empregos sob demanda [em inglês, at-will, modalidade de trabalho em que o empregador não precisa de justificativa para demitir o funcionário], onde o contrato de trabalho pode ser encerrado a qualquer momento, não é fácil fazer objeções.

O texto está originalmente publicado site Voyager ⬇

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